2016: dentro de campo, um ano para se esquecer

O ano de 2016 se pudesse seria apagado dos 103 anos de história do Rio Branco, mas como isso não é possível, que a nossa memória seja seletiva e esqueça. Foram apenas 19 jogos: três vitórias, seis empates e 10 derrotas. Além disso, o Tigre foi rebaixado para a Série A-3 de 2017, acumulando, assim, o 4º descenso de sua história: 2007 (Série A-1), 2010 (Série A-1), 2011 (Série A-2) e 2016 (Série A-2). 

Andrezão, que culpa nenhuma teve pelo rebaixamento, se emociona
Foto: João Carlos Nascimento | O Liberal
Este também foi o ano com menos jogos no profissionalismo, ao lado de 2007 (19 jogos pelo Paulistão) e de 2011 (18 jogos pela Série A-2 e um amistoso oficial). 

Outro recorde negativo que começou na gestão de 2015, da Zaka Sports, e se prolongou durante toda a atual administração é de o maior jejum de vitórias fora de casa do profissionalismo do Rio Branco (22 jogos). 

Também, foi o pior início de temporada da história do futebol profissional alvinegro: cinco derrotas e um empate. A estreia contra o Santo André bateu recordes negativos e só não foi a pior da história em Campeonato Paulista porque em 2011 o Tigre perdeu por 5 a 0 para o São José. 

Marcelo José Bordon, técnico na Série A-2, chegou com muita pompa, mas fez um trabalho pífio e deixou a história do Tigre como o 4º pior técnico em aproveitamento (mínimo de 3 jogos). Além disso, muitas brigas, confusões, públicos ruins e abandono total por parte dos empresários da cidade.

Foto: Sanderson Barbarini | Foco no Esporte
E de positivo? Bem complicado, mas vamos a dois dados positivos do ano alvinegro. No Clássico de Ouro, o Tigre conseguiu heroicamente manter o tabu em pleno Brinco de Ouro. Agora, são três jogos sem vitórias do Guarani sobre o Rio Branco e cinco anos que vão se estender. 

Foto: Sanderson Barbarini | Foco no Esporte
E, por fim, a primeira vitória sobre a Portuguesa no Canindé em toda a história. Aliás, foi neste jogo em que o Tigre derrubou o longo jejum de vitórias fora de casa. Um triunfo que acabou sendo histórico, mesmo com o rebaixamento. 

Foto: Dorival Rosa | Portuguesa
ANO BOM PARA AS BASES 
Se o profissional fez patético papel, as bases do Rio Branco tiveram um ano positivo. Foram dois vices-campeonatos da Copa Ouro: do Sub-11 (0x1 Palmeiras) e do Sub-17 (0x1 São Paulo). Além disso, essas duas mesmas categorias foram muito bem no Campeonato Paulista. 


O Sub-17 chegou à terceira fase no primeiro ano de trabalho do gerente Sandro Hiroshi. O Sub-15 demonstrou evolução em relação aos anos anteriores, enquanto o Sub-20 fez ruim campanha e o Sub-13 decepcionou diante das expectativas. 

Quem roubou a cena nas bases foi Júlio Vitor, de 15 anos, e que jogou no Sub-17 do alvinegro americanense. O atacante e artilheiro com 17 gols foi convocado para a Seleção Brasileira Sub-16, comandada por Guilherme Dalla Déa. O Tigre não tinha um atleta convocado para a Seleção de base desde o lateral-direito Gustavo, em 2000. 

Foto: Dener Chimeli | O Liberal
Com isso, o alvinegro foi um dos poucos times pequenos a ter algum atleta convocado para a seleção de base no ano de 2016. 



Anteontem, Júlio Vitor foi vendido para a Ponte Preta com o rótulo de "novo Neymar" - dito pelo presidente da equipe campineira, Vanderlei Pereira. Especula-se que a transação rendeu R$250 mil + 30% dos direitos econômicos do atleta para o Rio Branco. 

NA HISTÓRIA, O ORGULHO 
Foi um ano muito bom para o Rio Branco no quesito "preservação histórica". Mesmo com as taças ainda jogadas às traças no Décio Vitta, alguns trabalhos puderam orgulhar o torcedor alvinegro. 

O primeiro, claro, é o documentário Tigre De Americana - Uma Paixão Centenária que emocionou a todos os adeptos e simpatizantes do Rio Branco. Talvez, um dos maiores e melhores trabalhos de cenografia histórica do interior paulista. 

Aritana, talvez o maior ídolo da história do Tigre, assina camisa | Foto: Juarez Godoy
Com a participação de vários personagens ímpares da história do alvinegro americanense, o consultor e historiador Claudio Gioria e sua equipe trouxeram todos os gols da campanha de 1990, imagens do último jogo do AEC e declarações históricas.

À esq. o craque Macedo e à dir. o historiador Claudio Gioria nos bastidores da gravação
Foto: Juarez Godoy
2016 também foi um ano de evolução de reportagens e dados históricos nos periódicos. O TODODIA, com o seu editor-chefe Claudio Gioria e com o lendário repórter Luiz Peninha, continuou a fazer matérias que relembram momentos históricos do alvinegro americanense. 

E o O Liberal, que tinha perdido um pouco dessa nostalgia, não ficou atrás neste ano. Com o apoio do Acervo - Rio Branco Esporte Clube, por meio do dono e historiador Gabriel Pitor, o mais velho jornal da cidade trouxe muitas matérias históricas com autoria do repórter Renato Piovesan e do editor de esportes Bruno Moreira. 



A Rádio Brasil AM690, também com apoio do historiador Gabriel Pitor, ganhou mais dados históricos. Nas transmissões do Tigre, o narrador Ricardo Camargo trouxe o "Abrindo o Baú" que foi um resgate a jogos antigos do alvinegro americanense com ficha técnica e detalhes da partida. Também, no noticiário do Rio Branco do programa Planeta Bola - reproduzido diariamente das 18h às 19h - há o retrospecto histórico do Campeão do Centenário e seus pares na data, revelando, assim, grande parte dos jogos do futebol americanense. 

Ano positivo, também, para o Acervo de Jogos e Acervo Histórico do Rio Branco. Ao todo, já são quase 40 mil visitas, tanto para a consulta de jogos, quanto para leitura das matérias aqui publicadas. 

NAS PESQUISAS, AVANÇOS E DIFICULDADES
A história do Rio Branco ganhou grandes avanços nas pesquisas. Segundo o historiador Claudio Gioria, que está prestes a publicar um almanaque contando toda a história do Tigre, está quase completada a seção que terá a mini-biografia de todos os jogadores que em algum momento vestiram a camisa preta e branca. 

Vasquinho da Gama e Americana Esporte Clube também estão no ápice da preservação de suas histórias. Em 2016, o historiador Gabriel Pitor levantou mais de 600 jogos da dupla, sendo 60% com as suas fichas técnicas. Além disso, o trabalho de reconstrução está bem próxima de encontrar a verdadeira data de fundação do cruzmaltino americanense. 

Foi descoberto o verdadeiro escudo do Americana EC, publicado pelo acervo na semana passada. Uma novidade que veio para desmanchar equívocos históricos. 






O livro do Esporte Clube Vasco da Gama foi iniciado, porém ainda demorará para ser publicado. Nele, alguns personagens da história do Dragão serão entrevistados e colocados em cena. O torcedor poderá também recordar e conhecer o jogador com mais jogos, o maior artilheiro e outras dezenas de estatísticas da história do Vasco. 

Mas por que ainda falta muito para acabar o livro? Pelas dificuldades de pesquisa. Em outubro deste ano, o historiador Gabriel Pitor trouxe uma denúncia em seu Facebook pessoal mostrando a péssima situação dos periódicos antigos da cidade de Americana, inclusive abandonados pela gestão pública e cuidados apenas por um simpático senhor do acervo do município, Sr. Olavo. 






No mês passado, Pitor entrou em contato com o vice-prefeito de Americana, Roger Willians, fazendo uma proposta de restauração e microfilmagem dos jornais, com contra-partida financeira a ser decidida pela prefeitura da cidade e com os periódicos sendo obrigatoriamente doados para o historiador. 

Na proposta, Gabriel se comprometeu em um prazo de dois anos e meio a colocar um site no ar com todos os jornais escaneados para consulta pública aberta. Contudo, o historiador não teve resposta do vice-prefeito. 

A VOLTA DO VASCO DA GAMA
Em 6 de julho, o novo presidente do Vasquinho, Anderson Cantarelli, anunciou a volta do cruzmaltino às atividades, encerradas em 1979 com o nome de Americana Esporte Clube. O retorno, momentaneamente, não se deu no futebol, mas sim, no basquete. 

Isso balançou o cenário esportivo da cidade, inclusive com os dois jornais de Americana fazendo matérias destacando o eterno clube da Vila Rasmussen ou, também, da Conserva. 



O Acervo - Rio Branco Esporte Clube torce para que o Vasco também possa voltar no futebol - mesmo que seja apenas nos campeonatos da LAF. 

2017: ESPERANÇA 
O Rio Branco está com uma nova gestão em seu futebol: Sandro Hiroshi, lendário atacante do Tigre da Paulista; e Luiz Eduardo Salau, o Dado, apaixonado riobranquense e dono das lojas "Mega Tintas" serão os homens-fortes do futebol alvinegro. 

À esq. o presidente do Tigre Valdir Ribeiro e à dir. o empresário Dado Salau
Para o comando técnico, João Batista foi contratado. O treinador já tinha passado pelo RB, em 2014, quando fez a melhor campanha da história do time na Copa Paulista, sendo nove vitórias, quatro empates e nova derrota. João conhece o Rio Branco e sabe do peso de sua história, inclusive faz questão de salientar isso em suas palavras. 

Oficialmente, 19 jogadores foram contratados e estão treinando desde a segunda semana de novembro. A expectativa é grande diante de um trabalho que vem sendo profissional e bastante transparente.

Aliás, a boa fase recolocou o Rio Branco na grande mídia, inclusive com o preparador físico, Raul Záccaro, sendo destaque no programa Bate-Bola da ESPN Brasil: 



Outro fato a se chamar atenção é o crescimento da imprensa fotográfica do Rio Branco por meio do Foco no Esporte, comandado e todo feito por Sanderson Barbarini. Suas fotos têm ganhado projeção nacional e ilustrado todos os periódicos da cidade. Nunca o Tigre teve tantos registros fotográficos em sua história. 

O ''Bamba'' da região é o Vasco da Gama

O ser-humano quase como um todo tem uma mania estranha: querer apontar o melhor para todas as situações. Talvez, este seja um discurso generalista, mas se aplica diretamente ao que aconteceu em novembro e dezembro de 1969, quando Vasco da Gama e União Barbarense disputaram a "Taça Bernardes Fonseca" ou, como foi apelidado, "Torneio Bamba da Região". 

Para explicar melhor é preciso recorrer aos dois anos anteriores à taça citada. Em 1967, o União Agrícola Barbarense se sagrou campeão da Segunda Divisão Paulista - equivalente ao terceiro escalão estadual - com uma campanha brilhante. Segundo levantamento do historiador unionista, João José Bellani, foram 19 jogos: 13 vitórias, quatro empates e apenas duas derrotas. A equipe barbarense, comandada pelo técnico Lilo, sacramentou o título após triunfo por 3 a 0 sobre o Fernandópolis, em Araraquara.

No ano seguinte, 1968, foi a vez do Vasco da Gama ocupar o lugar maior da Segunda Divisão ao bater o Municipal de Paraguaçu Paulista - a extinta Paraguaçuense - por 2 a 0 no Alfredo de Castilho, em Bauru. A final aconteceu em 20 de abril de 1969 - o campeonato se estendeu até o ano seguinte. 

Ao todo, foram 26 jogos da campanha vascaína: 16 vitórias, dois empates e oito derrotas. O cruzmaltino começou com o técnico Gamba que caiu após derrota por 1 a 0 para o Bauru AC, lanterna da chave na 1ª fase; quem assumiu foi David Tonussi, diretor vascaíno, que ficou até o fim da fase inicial. Lucídio Camargo, um dos treinadores de maior sucesso do amador americanense, foi quem levou o Dragão ao título.

Chegou o ano de 1969 e a curiosidade era saber quem era o melhor time da região: Vasco ou União? A Rádio Brasil, que na época transmitia os dois clubes, resolveu colocar um ponto final nessa discussão com a Taça Bernardes Fonseca. O Acervo - Rio Branco Esporte Clube conversou com vários historiadores da cidade de Santa Bárbara d'Oeste, mas nenhum soube dizer quem é o cidadão que dava o nome ao troféu. 

Como a Taça foi criada justamente para decretar o melhor time da região, o certame amistoso ficou conhecido como "Torneio Bamba da Região". A expressão "Bamba" vem de melhor, de "bam-bam-bam", de "quem manda". 

Foi assim que em 13 de novembro de 1969 ficou decidido que o torneio seria realizado em "melhor de três jogos", ou seja, quem somasse mais pontos dentro de três partidas ficaria com a taça. Os cotejos seriam realizados com a margem de 14 dias a fim das equipes se prepararem bem para as decisões.


Jogo 1: vitória do Leão em Americana
O Vasco da Gama, comandado por João Avellino, não fez valer o fator casa. Diante de bom público no Caldeirão de Victório Scuro, o União foi quem fez os dois primeiros pontos - na época, a vitória valia dois pontos na classificação. 

Na formação inicial, o técnico cruzmaltino esperava surpreender o União: colocou Airton e Melo como dupla de zaga e Nilton e Romualdo como laterais. Foi um desastre. Com 30 minutos de peleja, o Leão da 13 já aplicava 2 a 0 no Vasco: Euzébio e Ditinho assinalaram. 

Diante da tragédia tática vascaína, João Avellino manda Valdecir para campo no lugar de Romualdo, deslocando Airton para a lateral. O Dragão melhorou sensivelmente, suficiente para abrir o placar com Itamar. 

Após o intervalo, o Vasco volta motivado e melhor distribuído, logo cedo pressionando e com relativa dificuldade empatando em 2 a 2 por intermédio de Campos. Começou uma verdadeira pressão pela virada. Parecia que o tento da Cruz de Malta era questão de tempo, mas Avellino tira Moacir Guaçu, destaque do meio de campo, e coloca Maurinho, fazendo o time americanense cair totalmente de produção. A consequência foi o terceiro gol do União anotado por Claudinho. 

VASCO DA GAMA 2X3 UNIÃO BARBARENSE
Data: 16/11/1969
Placar final: Vasco da Gama 2x3 União Barbarense
Placar 1º tempo: Vasco da Gama 1x2 União Barbarense
Local: Victório Scuro, em Americana
Árbitro: Milton Jorge - da FPF
Auxiliares: Atílio Empke e José Lopes
Público e renda não informados

Vasco da Gama: Claudinei; Nilton, Airton, Melo e Romualdo (Valdecir); Moacir Guaçu (Maurinho) e Tuti; Jairzinho, Itamar (Carlinhos), Demerval e Campos. Técnico: João Avellino. 

União Barbarense: Wilson "Mancha Negra" (Mococa); Roque, Kiki (Leca), Neguito e Celinho; Claudinho e Waldir; Ditinho, Ivan (Zé 21), Nardinho e Euzébio. Técnico: Raul. 

Gols:
UAB - Ditinho 20' 1T
UAB - Euzébio 29' 1T
VAS - Itamar 35' 1T
VAS - Campos 20' 2T
UAB - Claudinho 39' 2T

Na preliminar; Seleção Infantil de Americana 0x0 Seleção Infantil de Santa Bárbara d'Oeste

O Liberal - 18/11/1969

Jornal d'Oeste - 20/11/1969 - Reprodução CEDOC Romi

Jogo 2: Vasco vence em jogo polêmico
Não tinha escapatória: o Vasco da Gama precisava vencer para provocar a famosa "negra" - expressão utilizada para se referir ao terceiro jogo. Ao União Barbarense um empate interessava e com uma grande vantagem de jogar em seus domínios. Era tudo o que eles queriam. 

A casa não estava cheia - pelo contrário, o público foi bem fraco no Antônio Lins Ribeiro Guimarães. Esperava-se muito mais da torcida alvinegra barbarense diante de um jogo de grande interesse da platéia, ainda mais sendo um dérbi. Enfim, quem não foi também não perdeu muito porque o espetáculo foi totalmente prejudicado por uma fraca arbitragem e pela chuva.

Eram decorridos 30 minutos quando Ademar assinalou o primeiro e único tento vascaíno. O ponta-direita fez um cruzamento despretensioso que acabou entrando. Não demorou muito para o União empatar: apenas cinco minutos. Após cruzamento de Euzébio, Claudinei, goleiro do Vasco, falhou e Ditinho, de canela, empurrou para as redes. 

Na segunda etapa, a partida caiu drasticamente de rendimento e de qualidade. Uma várzea. E, "para ajudar", o árbitro Hernani Luiz, da Liga Campineira de Futebol, já estava enervando os jogadores das duas equipes com marcações duvidosas e descabidas. 

Quando o relógio assinalava 28 minutos da etapa complementar, o Vasco tenta um lançamento por intermédio de Jairzinho, mas que acaba no peito de Neguito que sai jogando entre a intermediária e a entrada da área. O árbitro viu um inexistente "toque de mão" do zagueiro unionista. Era o que faltava! Os jogadores do Leão da 13 cercaram e agrediram o juiz. Naquele tumulto, cinco atletas do União foram expulsos e foi dado vitória para o Vasco por W.O.

Vale relatar também que foi preciso que o presidente do União descesse das cativas para separar a briga. Hernani Luiz foi para os vestiários e não mais voltou. O Vasco, que nada tinha que ver com isso, também foi embora e esperava por uma reunião entre os diretores para decidir a realização ou não do terceiro jogo.

UNIÃO BARBARENSE 1X1 VASCO DA GAMA
Data: 30/11/1969
Placar final: União Barbarense 1x1 Vasco da Gama - Encerrado aos 28' da 2ª etapa
Placar 1º tempo: União Barbarense 1x1 Vasco da Gama
Local: Antônio Lins Ribeiro Guimarães, em Santa Bárbara d'Oeste
Árbitro: Hernani Luiz - da Liga Campineira de Futebol
Renda: NCr$1.300,00
Público não informado

Vasco da Gama: Claudinei; Clésio, Edson, Melo e Nilton; Moacir Guaçu e Tuti (Maurinho); Jairzinho, Mazinho (Carlinhos), Zélio e Ademar. Técnico: João Avellino. 

União Barbarense: Mococa; Roque, Kiki, Neguito e Celinho; Claudinho e Waldir; Ditinho, Ivan (Zé 21), Nardinho e Euzébio. Técnico: Raul. 

Gols:
VAS - Ademar 30' 1T
UAB - Ditinho 35' 1T

Na preliminar; Seleção Infantil de Americana 2x2 Seleção Infantil de Santa Bárbara d'Oeste

O Liberal - 02/12/1969

Jornal d'Oeste - 03/12/1969 - Reprodução CEDOC Romi

Reunião: confirmada a vitória do Dragão
No dia 8 de dezembro, a comissão organizadora, ou seja, a Rádio Brasil, se reuniu com os diretores do Vasco da Gama e do União Barbarense para consignar o que seria feito dali em diante com a Taça Bernardes Fonseca. Após a apreciação da súmula do árbitro Hernani Luiz foi DECRETADO OFICIALMENTE A VITÓRIA do Esporte Clube Vasco da Gama por walkover

O fato, aliás, foi noticiado pelo principal jornal americanense, O Liberal, e pelo principal jornal barbarense, Jornal d'Oeste. Ou seja, todos os relatos batem que os pontos foram dados ao Vasquinho. Deste modo, o Dragão e o Leão estão com dois pontos cada - e isso é inquestionável. 

09/12/1969 - O Liberal
Jornal d'Oeste - 14/12/1969 - Reprodução CEDOC Romi
Note a parte grifada que até mesmo o jornal da cidade de Santa Bárbara d'Oeste aponta que os pontos do segundo jogo foram dados ao Vasco da Gama, ou seja, a vitória é cruzmaltina

"Negra": Vasco é o "Bamba" da Região
Campeão sem vencer. Parece estranho, mas é verdade. O Vasco da Gama foi campeão da Taça Bernardes Fonseca sem vencer o União na "negra", isso porque o rival desistiu de jogar a prorrogação se retirando rapidamente aos vestiários do estádio Victório Scuro. 

Aliás, a confusão da "negra" mostrou um lado imparcial e sombrio do rival que chutou o que mesmo acordou na reunião do dia 8 de dezembro. Um erro fatal e pago eternamente com o título. 

Talvez, se o União Barbarense tivesse jogado a prorrogação teria ganho a taça, principalmente tendo em vista o tão favorável retrospecto contra o Vasco da Gama em sua história. Porém, em um gesto decepcionante, o Leão da 13 quis se "auto-declarar" campeão e se colocar acima das regras do jogo. Isso não é possível em qualquer lugar do mundo. 

Pois bem, nos atentemos aos fatos que é o que interessa para os registros históricos. 

O Vasco fez estrear neste jogo o ponta Careca, vindo da Internacional de Limeira, e Walter, que já era do time vascaíno. E deu muito certo, porque foi Careca, aos 10 minutos, quem abriu o placar no Caldeirão: 1 a 0 Cruz de Malta. 

Aos 33 minutos, em uma jogada toda trabalhada individualmente por Ditinho, Waldir empatou para o União Barbarense. 1 a 1 foi o placar da primeira etapa.

As equipes voltaram para o segundo tempo dispostas a matarem o jogo nos primeiros minutos. Ditinho, aos 6, virou a partida para o Leão: 2 a 1 União. Aos 17, Zélio em um bate e rebate dentro da área empurrou para o fundo da rede de Wilson "Mancha Negra". Era o empate vascaíno. 

Depois disso, o jornal O Liberal cita o estranho fato de que o União Barbarense começou "a tocar a bola de lado para garantir o resultado", mas o empate não favorecia a ninguém. O Vasco, ao contrário, continuou a buscar o resultado de vitória a fim de conquistar a taça já nos 90 minutos regulamentares. 

Porém, o Dragão não obteve sucesso e o jogo foi dado por terminado. Os jogadores unionistas brevemente comemoraram e se cumprimentaram, se dirigindo rapidamente aos vestiários. O árbitro da partida, Emídio Marques Mesquita, assim como os jogadores do onze da Cruz de Malta, esperaram no gramado a volta do alvinegro barbarense para a prorrogação.

Também, o time do União foi chamado no vestiário para retornar ao campo a fim de disputar o extratime. O presidente do Leão, Casemiro Alves, não aceitou e afirmou que o Vasco tinha "empatado duas e perdido uma". O presidente do Vasco, Alcindo Furlan, dizia repetidamente que "se o União fugiu de campo, a taça é nossa". 

Depois de aguardados os 15 minutos previstos em regulamento, o jogo foi dado como encerrado e, por desistência do União Barbarense, o Vasco da Gama de Americana foi oficializado pelos organizadores como CAMPEÃO da Taça Bernardes Fonseca. 

Futuramente, o União Barbarense, como forma de justificar sua desistência e angariar os pontos perdidos, alegou que os jogadores Careca e Walter, do Vasco, não poderiam atuar devido a não estarem inscritos na competição. Tal alegação não sucedeu pois se assim fosse o avante Chicão, do União, também deveria ser penalizado; e o Vasco da Gama foi novamente declarado campeão.

VASCO DA GAMA 2x2 UNIÃO BARBARENSE
Data: 14/12/1969
Placar final: Vasco da Gama 2x2 União Barbarense - Encerrado após desistência do União Barbarense da prorrogação
Placar 1º tempo: Vasco da Gama 1x1 União Barbarense
Local: Victório Scuro, em Americana
Árbitro: Emídeo Marques Mesquita - da FPF
Renda: NCr$3.000,00
Público não informado

Vasco da Gama: Claudinei; Clésio, Edson, Melo e Nilton; Moacir Guaçu e Tuti; Careca, Mazinho, Zélio e Ademar (Walter). Técnico: João Avellino. 

União Barbarense: Wilson "Mancha Negra"; Roque, Kiki, Neguito e Celinho; Claudinho e Waldir; Ditinho, Chicão, Nardinho e Euzébio (Ivan). Técnico: Raul. 

Gols:
VAS - Careca 10' 1T
UAB - Ditinho 33' 1T
UAB - Ditinho 6' 2T
VAS - Zélio 17' 2T

Incoerência? Veja o que as duas imprensas noticiaram
Vamos ver agora o que as duas imprensas noticiaram no pós-jogo da "negra" da Taça Bernardes Fonseca. Por que ler os dois lados? É essa a postura que todo historiador deve adotar em jogos polêmicos. Em algumas oportunidades isso não é possível por falta de recursos, mas neste caso, como temos acesso ao principal periódico americanense e barbarense da época, também temos a obrigação de ler os dois lados e ver as incoerências. 

A começar com o O Liberal que, de certa forma, aproximou-se do imparcial e foi coerente em suas argumentações e nas tratativas pós-jogo:

O Liberal - 16/12/1969
O Liberal foi coerente em seus comentários, até mesmo contrariando as reclamações vascaínas quanto ao segundo gol do União Barbarense. O meio de comunicação seguiu aquilo que foi acordado em reunião no dia 8 de dezembro, considerando, de forma correta, a vitória do Vasco no 2º jogo e a desistência do União.

Agora, eis o Jornal d'Oeste:

Jornal d'Oeste - 18/12/1969 - Reprodução CEDOC Romi
Note, inicialmente, a diferença dos relatos: o O Liberal conta como foi o jogo em detalhes, já o Jornal d'Oeste nem mesmo traz os autores dos gols.

Outra diferença: o uso de adjetivos e substantivos que expressam emoção. "Inventada", "maçante", "desespero dos vascaínos", "gesto fidalgo" são alguns dos versículos utilizados pela imprensa barbarense para se referir ao jogo e seus personagens. É sempre importante dizer que no Jornalismo é recomendado que se evitem adjetivos ou substantivos que gratifiquem ou tragam um posicionamento do redator - a não ser que seja um artigo ou crônica. 

Por fim, o Jornal d'Oeste, talvez este sim desesperado para dar uma justificativa e levar de vencida, chuta totalmente o que noticiou e o que foi acertado na reunião de 8 de dezembro. Vamos às partes incoerentes:

Na edição de 14 de dezembro de 1969, o Jornal d'Oeste diz que foi dado os "pontos [do 2º jogo] para a equipe do Vasco" - retornem e olhem a parte grifada do texto. Na matéria pós o 3º jogo, eles já desconsideram esse fato noticiado, se referindo à "negra" como "inventada" e que o União teria vencido uma e empatado duas (e não perdido o 2º jogo). 

Mais abaixo, ele fala que o Vasco tem "uma derrota e um empate" e, por isso, não teria como o identificar como o "Bamba da Região". Além de uma incoerência é também um erro, porque se realmente tivesse sido considerado empate do cruzmaltino no 2º jogo além de não ser realizado o 3º jogo, o Dragão teria dois empates e uma derrota (e não um empate e uma derrota). Porém, como visto anteriormente, na reunião de 8 de dezembro de 1969 foi dado como OFICIAL a vitória do Vasco da Gama no segundo jogo. 

Discussão até os dias atuais
Apesar das evidências apontarem para o título vascaíno, ainda há muita discussão acerca dessa Taça e nem mesmo a Rádio Brasil, ainda existente e que até mesmo transmite os jogos do Rio Branco, sabe responder quem é o verdadeiro campeão.

O historiador do União Barbarense, JJ Bellani, crava com todas as letras que o "Bamba" da Região é o Leão da 13 - inclusive afirma isso no seu almanaque de 100 anos do clube barbarense e que pode ser encontrado no site do CEDOC (Centro de Documentação Histórica) da Romi.

O Acervo - Rio Branco Esporte Clube, em nome de seu historiador e fundador Gabriel Pitor, irá sempre se colocar na contra-mão disso de acordo com os fatos aqui apontados. Dessa forma, a menos que haja um fator claro e evidente que contrarie, sempre noticiarei (e noticiaremos) como o título sendo de posse do cruzmaltino.

E isso é normal. O processo de levantamento histórico prega essas peças e somos, com toda a segurança, obrigados a ouvir e ler os dois lados da história. Isso é o que acabamos de fazer. E, apesar de termos a nossa própria conclusão (Vasco campeão), a interpretação é íntima de cada leitor, uma vez que os fatos foram de vez trazidos à tona.

OBSERVAÇÃO IMPORTANTE
Segundo o historiador João José Bellani, a Taça Bernardes Fonseca foi mandada posteriormente pelo Vasco ao União Barbarense e se encontra na sala de troféus do clube unionista. Nós buscamos pelo menos um registro fotográfico da taça ontem, no dia da apresentação do novo treinador Edson Leivinha e de toda a comissão técnica, e NÃO encontramos "o caneco".

Há também suspeitas de que essa taça, na verdade, esteja no Rio Branco Esporte Clube, onde alguns artigos do Vasco da Gama foram levados após a fusão não-incorporada de 1979. O Acervo vai tentar a todo custo trazer uma foto do troféu - estando ele na sala de troféus do União ou do Tigre.

Pesquisa: historiador Gabriel Pitor Oliveira
Acervo: Gabriel Pitor Oliveira
Matéria: escrita por Gabriel Pitor Oliveira

Vasco e Carioba lutam pela Taça Centenário de Americana em 1975

O futebol reserva momentos e contextos irônicos. Em 1975, Vasco da Gama e Carioba lutaram bravamente pelo título de "Campeão do Centenário" da cidade de Americana. Porém, antes de contarmos toda a ironia por trás desse troféu, nos remetemos à história da Princesa Tecelã. 

A Villa (com dois "L" mesmo) Americana nasceu oficialmente em 27 de agosto de 1875 com a formação de moradias temporárias e com o loteamento de terras da Fazenda Machadinho - de Ignácio Corrêa Pacheco - ao redor da Estação Santa Bárbara, um prolongamento da linha tronco da Cia. Paulista. A partir daquele momento, como diz o hino da cidade, um "povoado formou".

Entretanto, a "Vila dos Americanos" já era uma realidade. Na década de 60 do século XIX, os primeiros americanos como Willian Hutchinson Norris, advogado e ex-senador do estado de Alabama, e sua família vieram para a região - todos refugiados da Guerra de Secessão - e se instalaram próximos à Fazenda Machadinho. Também nessa década chegaram os primeiros confederados que trouxeram - e aqui novamente citando o hino de Americana: o trole, a melancia, o algodão e o arado. 

Com a ampliação da linha tronco da Cia. Paulista - muito apoiada pelos confederados -, com a formação de um povoado ao redor da Estação Santa Bárbara, com a futura criação da Tecelagem Carioba e com a região tendo vários moradores por conta das fazendas Machadinho, Salto Grande e Palmeiras, não tinha mais requisitos para oficializar a Villa Americana. 

Cem anos depois, a cidade viveu muitas comemorações. Desde eventos e inaugurações de monumentos e locais até a recepção de familiares dos confederados fundadores. 1975 foi um ano de muita festa em Americana. E um dos "eventos" comemorativos ao centenário da Princesa Tecelã foi uma taça, a ser jogada no feriado do dia 12 de outubro, entre o Vasco da Gama, único representante do futebol profissional do município, e o campeão amador de Americana - na época, o torneio era conhecido como "Gigantão". 

Nunca tinha se criado tamanha expectativa pelo campeão amador de Americana. Muitos torciam para que o Flamengo fosse o vencedor a fim de fazer o já conhecido "Clássico Caipiro-Carioca" em busca do título maior de "Campeão do Centenário". Entretanto, tinha um time sedento como nunca pelo título de 100 anos: o Carioba. E aí entra o fato irônico e curioso por trás da Taça Centenário de Americana. 

Em 1922, o Rio Branco, arquirrival do Carioba, sagrou-se campeão do "Centenário da Independência do Brasil" ao abater por 2 a 1 o Taubaté na final do Campeonato do Interior. Depois daquele título, o Tigre da Paulista carregava por todo canto a alcunha de "Campeão do Centenário", inclusive na capital do estado. E por muito tempo esta foi a maior glória que um riobranquense poderia se gabar para o seu rival cariobense. Por décadas, além dos xingamentos de "colonos", "fazendeiros", "escravos" e "ladrões", os riobranquenses "encheram o saco" dos torcedores vermelhinos com o título do Centenário. 

1975, então, era a hora da vingança. Se o Carioba não poderia mais ser o Campeão do Centenário da Independência do Brasil, talvez pudesse ser o Campeão do Centenário de Americana. A Vermelhinha investiu até o que não tinha de dinheiro em um time forte para conquistar o Amador e, posteriormente, fazer frente com o Vasco na Taça Centenário. 

E aí carrega outra grande ironia - que é triste: o Carioba investiu tanto, buscou tanto esse título que no ano seguinte não aguentou e novamente se afastou do futebol. Mais tarde, o clube como um todo anunciaria o encerramento de suas atividades.

O Carioba morreu tentando se vingar do Rio Branco. 

O Rio Branco que voltaria ao futebol em 1979 com a ajuda do Vasco (mas com o nome de Americana EC). 

O certame amador e a Taça Centenário de Americana
O Gigantão 75 teve a participação de 20 times divididos em quatro grupos. Os dois melhores de cada grupo iriam para a segunda fase. Assim estavam divididas as chaves: 

GRUPO I - Carioba, Primavera, Flamengo, Torino e Rio Branco (juniores)
GRUPO II - Sete de Setembro, São Manuel, América, Bangu e Atleta
GRUPO III - São José, Universal, Bonsucesso, São Vito e Estrela do Mar
GRUPO IV - Vila Jones, Voluntários da Pátria, Colorado, Santarosa e Guarani

PRIMEIRA FASE (SÓ TURNO)
GRUPO I - 
Carioba - 8 pontos (classificado)
Torino - 6 pontos (classificado)
Flamengo - 4 pontos
Rio Branco - 2 pontos
Primavera - 0 ponto

GRUPO II -
Sete de Setembro - 6 pontos (classificado)
América - 6 pontos (classificado)
São Manuel - 4 pontos
Bangu - 3 pontos
Atleta - 1 ponto 

GRUPO III -
Estrela do Mar - 7 pontos (classificado)
São José - 5 pontos (classificado)
São Vito - 4 pontos
Bonsucesso - 3 pontos
Universal - 1 pontos

GRUPO IV - 
Vila Jones - 6 pontos (classificado)
Santarosa - 6 pontos (classificado)
Guarani - 5 pontos
Voluntários da Pátria - 3 pontos
Colorado - 0 ponto

SEGUNDA FASE (TURNO E RETURNO)
GRUPO I - Estrela do Mar, Carioba, São José e Torino
GRUPO II - Sete de Setembro, Vila Jones, América e Santarosa

GRUPO I -
Carioba - 12 pontos (classificado)
São José - 4 pontos (classificado)
Torino - 3 pontos
Estrela do Mar - 1 ponto

GRUPO II -
América - 8 pontos (classificado)
Santarosa - 6 pontos (classificado)
Vila Jones - 5 pontos
Sete de Setembro - 1 ponto

FASE FINAL (SÓ TURNO)
Disputaram: Carioba, São José, Santarosa e América

JOGOS
24/08 - Carioba 3x2 América - Parque Dona Albertina (Carioba)
24/08 - Santarosa 1x1 São José - Parque Dona Albertina (Carioba)

31/08 - América 2x0 Santarosa - Parque Dona Albertina (Carioba)
31/08 - São José 2x3 Carioba - Parque Dona Albertina (Carioba)

07/09 - América 6x3 São José - Victório Scuro

JOGO DO TÍTULO
07/09 - Carioba 1x0 Santarosa* - Victório Scuro
CARIOBA - Andrada; Bertinho, Bio, Arnô e Helinho; Cobrinha, Nenê e Melado (Bimba); Flávio (Tuca), Bonitão e Tó.
SANTAROSA - Camondá; Airton, Pacau, Buglê e Valdoiro; Cabeludo, Wilmo e Lando; Joãozinho (Cangica), Baiano e Geraldo.

Gol: 44' 2T - Bonitão
Árbitro: José Carlos Pinto
Auxiliares: Ademar Ribeiro e Antonio de Souza

*O Santarosa atuou com dois jogadores irregulares (Valdoiro e Baiano) propositalmente, já que se assim não fizesse perderia por W.O. por falta de jogadores.

CLASSIFICAÇÃO FINAL
Carioba - 6 pontos (campeão)
América - 4 pontos (vice-campeão)
São José - 1 ponto
Santarosa - -1 pontos

O Liberal de 9 de setembro de 1975 se precipita e coloca Carioba como "O Campeão do Centenário" antes da final da Taça Centenário de Americana

A TAÇA CENTENÁRIO DE AMERICANA
Após o título do Carioba no certame amador, a cidade começou a viver a expectativa da final da "Taça Centenário" e que, ao contrário do que O Liberal noticiou no dia 9 de setembro, verdadeiramente declararia o "Campeão do Centenário de Americana".

Neste jogo, além da taça, o Vasco colocaria as faixas de campeão no time do Carioba. Então, a expectativa era maior ainda para a torcida vermelhina ver seu bravo esquadrão receber os louros da vitória.

O Liberal de 20 de setembro de 1979 destaca a reunião entre Vasco e Carioba para alinhar a Taça Centenário de Americana
Para se ter uma ideia da expectativa cruzmaltina para o confronto, o Vasco acertou para o dia 28 de setembro um amistoso contra o misto do Guarani, de Campinas, como preparação. No mesmo dia em que foi anunciado o prélio, o O Liberal de 23 de setembro destaca o que foi decidido entre os postulantes ao título de "Campeão do Centenário": 

"Na reunião realizada sábado entre mentores cruzmaltinos e cariobenses, todos os detalhes foram acertados para os dois jogos "comemorativos". O primeiro deles será efetuado em Victório Scuro, dia 12 próximo, ocasião em que os vascaínos colocarão as faixas de campeões nos vermelhinos. Outras festividades estão programadas para esta tarde memorável do nosso futebol, onde o público americanense poderá reviver grandes jornadas aqui já efetuadas. 

O segundo jogo será em Carioba, dia 19, quando então os cariobenses estrearão novo uniforme e com algumas modificações inclusive."

Após o amistoso contra o Bugre, encerrado em empate por um tento, era hora de se preparar para o grande confronto valendo a Taça Centenário de Americana. E o clima não era dos mais amistosos...

O Liberal de 30 de setembro de 1975 traz matéria especial com diretores vascaínos e cariobenses
buscando retirar o "Clima de Guerra" já existente
A semana do "pega", destaca o jornal O Liberal de 7 de outubro de 1975
DECET confirma o Troféu Centenário na disputa entre Vasco e Carioba
O Liberal de 9 de outubro de 1975
Batista, zagueiro do Vasco, provoca o Carioba: "Vamos ganhar de 4 a 0"
O Liberal de 11 de outubro de 1975
PAPELÃO, MAS VASCO VENCE
Diante de um público expressivo no estádio Victório Scuro, Vasco e Carioba começaram os primeiros 90 minutos de luta pela Taça Centenário de Americana. Bom, foram os noventa primeiros e últimos também.

O clima era muito tenso entre as equipes. Em 25 minutos de jogo, dois atletas, Diceu do Vasco e Cuvre do Carioba, foram expulsos de campo tamanha reclamação com o árbitro da partida, Paulo Camargo Neves. E toda a etapa inicial foi assim: muita reclamação, briga, empurra-empurra e confusão.

No segundo tempo, os times voltaram mais dispostos a "jogar futebol". O cotejo estava transcorrendo bem, apesar de alguns lances ainda fugirem da normalidade, até que em uma bola cruzada para área, o goleiro do Vasco, Jacaré, o zagueiro cruzmaltino, Adalberto, e o atacante cariobense, Tó, dividiram e brigaram pela bola. O ponteiro vermelhino, ao tentar tirar a bola das mãos de Jacaré, chutou a cabeça do arqueiro vascaíno. Era o que faltava para explodir de vez.

O tumulto foi generalizado. Entre socos, provocações e discussões, o árbitro acabou encerrando a partida aos 33 minutos. O goleiro Jacaré foi levado ao Hospital São Francisco em uma atitude de prevenção a um possível traumatismo.

O presidente do Vasquinho, Roberto Manzillo, lamentou o ocorrido em entrevista ao O Liberal: "Já há quinze dias que eu, particularmente, vinha pedindo paz e não guerra. A guerra, infeliz e lamentavelmente, aconteceu (...) Não vamos jogar em Carioba, não há condições para que esse jogo seja realizado. Se quiserem, podemos colocar apenas as faixas no time deles, mas jogar não tem como."

Geraldo Pinhanelli, famoso comunicador da Rádio Clube, lamentou o ocorrido: "Reclamam a ausência da Clube nos estádios de futebol. Há condição, por acaso, de registrarmos acontecimentos como este de hoje? O que vamos dizer aos nossos ouvintes?".

Um torcedor do Carioba, bastante exaltado segundo o O Liberal, bradava: "Quando o Carioba tinha tudo para empatar, pois eles já não tinham mais fôlego, o juiz encerrou o jogo."

O placar final foi de 1 a 0 para o Vasco da Gama. O tento único foi marcado por Fio aos 16 minutos da primeira etapa.


CANCELADO O SEGUNDO JOGO, VASCO FICOU COM A TAÇA
O jornal O Liberal de 18 de outubro de 1975 traz a seguinte nota sobre o jogo de volta:

"CANCELADO
Foi definitivamente cancelado o segundo encontro entre Vasco e Carioba, após uma reunião que durou cerca de 2 horas na sede social vascaína, quarta-feira última. Insistiram os mentores cariobenses para que a segunda peleja fosse efetuada, com o intuito de apagar a má-impressão deixada pelo primeiro cotejo, mas os cruzmaltinos estiveram irredutíveis: "Não há condição de se jogar outra vez, pelo menos de imediato". O Carioba vai convidar uma outra agremiação para a colocação das faixas de campeão, bem como para um jogo onde o seu novo uniforme será utilizado."

No jornal O Liberal de 25 de outubro de 1975, ao destacar o amistoso contra o Jabaquara de Santos, é colocado que o Vasco foi o campeão e recebeu do DECET a Taça Centenário de Americana.

O Carioba convidou o Grêmio Recreativo Frum da capital, campeão do torneio "Desafio ao Galo" organizado pela TV Record, para o prélio de entrega de faixas no dia 1 de novembro.

Este confronto do dia 12 de outubro de 1975 foi o antepenúltimo do Esporte Clube Vasco da Gama em sua história - pelo menos com este nome. Depois disso, mais dois prélios: em 9 de novembro, 2 a 0 sobre o Jabaquara de Santos; e no dia 16 de novembro, contra o União Possense em comemoração ao aniversário de Santo Antônio de Posse, cujo resultado é desconhecido.

A diretoria do cruz de malta americanense, no dia 8 de fevereiro de 1976, votou pela troca de nome de Esporte Clube Vasco da Gama para Americana Esporte Clube. O primeiro cotejo dos aequinos foi em 9 de maio de 1976 contra o Capivariano, em Capivari: vitória por 1 a 0.

O Clube Recreativo e Esportivo Carioba se afastou das atividades futebolísticas em 1976 e, um ano depois, anunciou o encerramento/falimento total de suas atividades. Com isso, foi decretada a morte da "Vermelhinha".

Ficha técnica: Vasco da Gama 1x0 Carioba
Data: 12/10/1975
Placar final: Vasco da Gama 1x0 Carioba
Placar 1º tempo: Vasco da Gama 1x0 Carioba
Local: Victório Scuro
Renda: Cr$6.600,00
Árbitro: Paulo Camargo Neves
Assistentes: Oswaldo Linarello e João Antonio de Oliveira

Vasco da Gama: Jacaré; Carioca, Adalberto, Marcão e Romualdo; Silvinho, Dirceu e Luís Carlos; Marquinho, Fio e Bugre. Técnico: Bidon.

Carioba: Nenê; Bertinho, Arnô, Cobrinha e Helinho; Daio, Nenê e Amarildo; Covre, Tuca (Flávio) e Tó.

Gol:
VAS - Fio 16' 1T

Tigre no 7 de setembro: primeira vitória fora do estado e outras curiosidades

O dia 7 de setembro, feriado nacional por conta da Independência do Brasil, é importante em resultados e fatos para o Rio Branco Esporte Clube. Segundo o acervo do historiador Gabriel Pitor, o Tigre entrou em campo 13 vezes nesta data: cinco vitórias, três empates e cinco derrotas. São estes os prélios disputados:

07/09/1930 - Voluntários da Pátria 3x0 Rio Branco - Em Campinas
Campeonato Paulista do Interior - 4ª Região

07/09/1933 - Rio Branco 2x1 Paulista de Araraquara - Fernando de Camargo
Amistoso

07/09/1947 - Rio Branco 5x0 Francana - Fernando de Camargo
Campeonato Profissional do Interior - Segunda Divisão Estadual

07/09/1957 - Rio Branco 0x0 Guarani - Fernando de Camargo
Amistoso

07/09/1958 - Rio Branco 3x1 Sumaré - Fernando de Camargo
Campeonato Amador do Estado de São Paulo (organizado pela FPF)

07/09/1986 - União Barbarense 2x0 Rio Branco - Antônio Lins Ribeiro Guimarães
Campeonato Paulista da Segunda Divisão

07/09/1988 - Lemense 1x0 Rio Branco - Bruno Lazzarini
Campeonato Paulista da Divisão Especial - Segunda Divisão Estadual

07/09/1993 - União Bandeirante/PR 2x3 Rio Branco - Luís Meneghel
Amistoso

07/09/1997 - Atlético Sorocaba 1x0 Rio Branco - Walter Ribeiro
Campeonato Brasileiro da Série C

07/09/2003 - Rio Branco 1x2 Ituano - Décio Vitta
Copa FPF/Futebol Interior - Copa Paulista

07/09/2008 - Rio Branco 1x1 XV de Piracicaba - Décio Vitta
Copa Paulista

07/09/2013 - Rio Branco 1x0 Paulista de Jundiaí - Décio Vitta
Copa Paulista

Em 1930: a volta do "Supremo"
O jogo contra o Voluntários da Pátria em 1930 marcou a volta do Rio Branco aos campeonatos organizados pela APEA (Associação Paulista de Esportes Atléticos). O último jogo disputado pelo Campeonato do Interior foi em 11 de dezembro de 1927, mas com um W.O. do Tigre para o São João de Piracicaba. A última exibição de fato tinha acontecido em 20 de novembro daquele mesmo ano: 3 a 2 sobre o União Barbarense em Santa Bárbara d'Oeste.

Em 1928 e 1929, o Tigre da Paulista, reconhecido como "supremo do interior na década de 20", acabou se afastando dos torneios estaduais e apenas disputando amistosos de carteado. A volta em 1930 foi marcada por goleadas: além da derrota por 3 a 0 para o Voluntários da Pátria, também perdeu para a Ponte Preta por 6 a 0. Entretanto, goleou o arquirrival Carioba por 5 a 0 em 28 de setembro. 

Em 1933: juiz de respeito
Este foi um resgate do também historiador do Tigre, Claudio Gioria, no especial de 100 anos do Rio Branco para o jornal TODODIA. Naquele 7 de setembro, o Rio Branco enfrentou o Paulista de Araraquara em amistoso e venceu por 2 a 1. O prélio foi apitado por Luiz Bento Palamone, zagueiro da Seleção Brasileira campeã do Sul-Americano de 1922.

Foto do Arquivo de Claudio Marinho Falcão
Em 1947: a maior vitória do primeiro campeonato profissional
Este foi um ano especial para o futebol estadual, já que teve início o primeiro Campeonato Profissional do Interior, equivalente à segunda divisão estadual. O Tigre estava nessa. Aliás, o Rio Branco foi um dos fundadores deste torneio, junto a Guarani, XV de Piracicaba e Batatais. 

No dia 7 de setembro, o alvinegro americanense recebeu em sua casa a Francana e goleou: 5 a 0. Esta foi a maior vitória do Rio Branco em seu primeiro campeonato profissional. Confira todos os jogos do Campeão do Centenário na Segundona de 47: 

26 jogos
8V 3E 15D
D 18 de maio - Francana 2x0 Rio Branco
E 25 de maio - Rio Branco 1x1 Guarani
V 01 de junho - Barretos 1x2 Rio Branco
D 15 de junho - Rio Branco 0x5 XV de Piracicaba
D 22 de junho - Botafogo de Ribeirão Preto 4x2 Rio Branco
D 29 de junho - Rio Branco 1x2 São Bento de Marília
D 06 de julho - Ponte Preta 6x1 Rio Branco
D 13 de julho - Rio Branco 2x3 Taubaté
D 20 de julho - Sanjoanense 3x2 Rio Branco
V 27 de julho - Rio Branco 3x1 Batatais
V 03 de agosto - Rio Branco 2x0 Mogiana de Campinas
V 17 de agosto - Inter de Limeira 0x1 Rio Branco
E 24 de agosto - Palmeiras de Franca 2x2 Rio Branco
V 07 de setembro - Rio Branco 5x0 Francana
D 14 de setembro - São Bento de Marília 2x0 Rio Branco
D 21 de setembro - Taubaté 6x1 Rio Branco
V 28 de setembro - Rio Branco 3x0 Sanjoanense
D 05 de outubro - XV de Piracicaba 3x0 Rio Branco
D 19 de outubro - Rio Branco 0x2 Inter de Limeira
V 26 de outubro - Rio Branco 5x1 Palmeiras de Franca
E 16 de novembro - Rio Branco 3x3 Botafogo de Ribeirão Preto
D 23 de novembro - Batatais 1x0 Rio Branco
D 30 de novembro - Rio Branco 1x2 Barretos
D 07 de dezembro - Guarani 3x0 Rio Branco
V 13 de dezembro - Mogiana de Campinas 1x2 Rio Branco
D 21 de dezembro - Rio Branco 2x4 Ponte Preta

Em 1957: o último Clássico de Ouro antes da desativação
No dia 7 de setembro de 57, o Tigre recebeu em sua casa o Guarani para mais uma edição do Clássico de Ouro. Este foi o último confronto entre os rivais antes do longo período de desativação do futebol riobranquense iniciado em 1960. 

07/09/1957 - Rio Branco 0x0 Guarani
Amistoso
Local: Fernando de Camargo
Árbitro: Manoel A. de Souza
Renda: Cr$ 19.000,00

Rio Branco: Renato; Irineu e Rosalem; Giongo, Nivaldo e Dacio; Bita (Geraldinho), Anibal (Scarpin), Tatu, Tuquinho e Darcy.

Guarani: Carlos; Edgar e Osmar; Olívio, Wander e Antônio Carlos; Darcy, Lito, Colud, Roberto e Vasques.

Obs.: Na preliminar entre os aspirantes, 3 a 0 Guarani.

Em 1993: a primeira vitória fora do estado
Cumprindo uma série de amistosos do segundo semestre com o objetivo de revelar jogadores, o Rio Branco, do técnico Cilinho, enfrentou o União Bandeirante, no Luís Meneghel, no estado do Paraná. 

O alvinegro americanense foi até o estado vizinho e venceu: 3 a 2, gols de Marcos Alberto, Marcinho e Souza. Este foi o primeiro jogo do meio-campista Souza - que viria a brilhar em 1994 - e, segundo os registros dos periódicos, o atleta "acabou com o jogo": marcou um golaço e comandou o time com jogadas de muita habilidade. 

Jornal O Liberal dá a notícia sobre a vitória do Rio Branco
No profissionalismo, foram 33 jogos do Tigre fora do estado: quatro vitórias, 12 empates e 17 derrotas. A última vitória foi em 11 de outubro de 2000, pelo Campeonato Brasileiro da Série C: 1 a 0 sobre o Friburguense.

Campeão do Centenário da Independência do Brasil
O Tigre da Paulista é reconhecido como o "Campeão do Centenário da Independência do Brasil", título este conquistado junto ao Campeonato do Interior de 1922 após vitória sobre o Taubaté. E é claro que lembraríamos a história do Supremo naquele campeonato:

Zona Baixa Paulista
13/08/1922 - Rio Branco 3x1 Guarani - Fernando de Camargo
03/09/1922 - Rio Branco 2x0 São João de Jundiaí - Fernando de Camargo
12/10/1922 - Rio Branco 2x1 Paulista de Jundiaí - Fernando de Camargo
29/10/1922 - São João de Jundiaí 1x2 Rio Branco - Em Jundiaí
12/11/1922 - Guarani OxW Rio Branco - Em Campinas*
17/12/1922 - Paulista de Jundiaí 3x1 Rio Branco 
*O Guarani entregou os pontos da partida

1º Paulista de Jundiaí - 10 pontos | 6JG | 5V | 0E | 1D | 27GP | 8GS
2º Rio Branco - 10 pontos | 6JG | 5V | 0E | 1D | 10GP | 6GS
3º Guarani - 4 pontos | 6JG | 2V | 0E | 4D | 11GP | 20GS
4º São João - 0 ponto | 6JG | 0V | 0E | 6D | 8GP | 22GS

Na época não havia critério de desempate, ou seja, se dois times empatassem em pontos eles fariam um jogo de desempate. Dessa forma:
04/03/1923 - Rio Branco 2x1 Paulista - Campo do Corinthians em São Paulo

Decisão da Zona Paulista: Campeão da Zona Baixa Paulista x Campeão da Zona Alta Paulista
11/03/1923 - Rio Branco 3x2 Rio Claro - Em Jundiaí

Fase final
18/03/1923 - Rio Branco 0x0 Sanjoanense - Palestra Itália 
01/04/1923 - Rio Branco 2x0 América de São Roque - Em São Paulo
Após esses dois jogos, a classificação:
1º Rio Branco - 3 pontos | 2JG | 1V | 1E | 0D | 2GP | 0GS
2º Sanjoanense - 3 pontos | 3JG | 1V | 1E | 1D | 2GP | 2GS
3º Taubaté - 2 pontos | 2JG | 1V | 0E | 1D | 5GP | 2GS
4º América - 2 pontos | 3JG | 1V | 0E | 2D | 1GP | 6GS

O último jogo da fase final que decidiria o título. Em caso de vitória do Rio Branco ou empate, o título viria para Americana. Em caso de vitória Taubaté, o título iria para o Vale do Paraíba.

08/04/1923 - Rio Branco 2x1 Taubaté - Palestra Itália
Árbitro: Alfredo Medaglia
Rio Branco: Pisoni; Fructuoso e Alfredo; Ditinho, Raphael Vitta e Carrinho; Braga, Paschoal, Herculano, Augusto Américo e Albertino. 
Taubaté: Moreira; Moura e Simi; Santinho, Porfírio e Ernesto; Picciota, Pistillo, Aristide, Antônio e Jajá. 
Gols: Braga e Fructuoso para o Rio Branco; Ernesto para o Taubaté. 

1º Rio Branco - 5 pontos | 3JG | 2V | 1E | 0D | 4GP | 1GS
2º Sanjoanense - 3 pontos | 3JG | 1V | 1E | 1D | 2GP | 2GS
3º Taubaté - 2 pontos | 3JG | 1V | 0E | 2D | 6GP | 4GS
4º América - 2 pontos | 3JG | 1V | 0E | 2D | 1GP | 6GS

Rio Branco: Campeão do Interior de 1922 e Campeão do Centenário da Independência do Brasil


Rio Branco e Atlético Mineiro se enfrentam em 1990

Por Gabriel Pitor Oliveira


Amanhã (31), o Rio Branco entra em campo contra o União Barbarense, às 16h, no Antônio Lins Ribeiro Guimarães, pelo jogo de volta das quartas de final da Copa Paulista 2015. E o Tigre precisa de "um milagre atleticano" para se classificar à semifinal, uma vez que perdeu o jogo de ida por 2 a 0 no DV. Qualquer resultado de três gols de diferença favorece o Rio Branco, enquanto o empate no placar agregado favorece o União. 

Pensando nesse "milagre atleticano" que resolvemos resgatar o jogo entre Rio Branco e Atlético Mineiro, em 7 de julho de 1990. A partida aconteceu no mesmo palco do jogo de amanhã e reuniu dois times com laços históricos, quase irmãos. 

O Tigre da Paulista vivia aquele que seria um ano mágico e inesquecível. O super esquadrão comandado por Afrânio Riul conquistou, em 1 de dezembro, o acesso à elite do futebol paulista, onde o alvinegro americanense permaneceu por 17 anos consecutivos. E é interessante salientar os números daquele fantástico Rio Branco: foram 49 jogos - a começar no dia 14 de fevereiro em um amistoso contra o Independente de Limeira -, sendo 27 vitórias, 14 empates e oito derrotas; 70 gols feitos e 31 gols sofridos.

Para o confronto contra o Galo, o Rio Branco vinha de uma invencibilidade de 14 jogos. 108 dias sem saber o que era derrota. A última tinha acontecido em 21 de março contra o Taubaté por 1 a 0, no Vale do Paraíba. 

Por outro lado, o Atlético, um mês antes, tinha perdido o título do Campeonato Mineiro para seu arquirrival, Cruzeiro, por 1 a 0, gol de Careca. Depois disso, o Galo só enfrentou o Vila Nova/GO pela Copa do Brasil, do qual passou facilmente com um 5 a 0 no placar agregado. O prélio contra o Rio Branco era o principal de uma sequência de amistosos até as oitavas de final da Copa do Brasil contra o Rio Negro/AM. 

Além disso, o calendário do futebol brasileiro estava praticamente parado devido a Copa do Mundo de 1990, na Itália. Por isso, os times nacionais marcavam amistosos tanto em preparação ao Campeonato Brasileiro e Copa do Brasil, caso do Atlético Mineiro, quanto para não perder o ritmo de jogo, caso do Rio Branco que disputava a Divisão Intermediária. 

A bola fora do Consórcio Piracicaba
A partida, apesar de também ter sido combinada entre os dois clubes, teve o intermédio de uma empresa: o Consórcio Piracicaba. O organizador do confronto ofereceu Cr$150 mil ao Tigre da Paulista para aceitar o amistoso. Obviamente, o Rio Branco, que já tinha organizado amistosos "gratuitamente" contra Palmeiras e XV de Piracicaba, acatou a proposta. O Atlético Mineiro teve todas as suas despesas pagas pelo Consórcio.

Mas a empresa pisou na bola quando anunciou que o jogo aconteceria no estádio Antônio Lins Ribeiro Guimarães. O torcedor riobranquense não gostou nada da ideia de ter que ir ao estádio rival e fora de sua cidade para enfrentar o Galão da Massa. Até porque, o Décio Vitta estava em perfeitas condições e tinha capacidade (mais que) necessária para receber o embate.

E a massa riobranquense já estava ambientada com o time. Contra Palmeiras e XV de Piracicaba, excelentes públicos prestigiaram o alvinegro. Na Divisão Intermediária, não era diferente, uma vez que os menores públicos marcavam, em média, 4 mil pagantes. Contra o Independente de Limeira, no dia 3 de junho de 1990 - último jogo antes da sequência de amistosos contra Palmeiras, XV e Atlético -, por exemplo, 11.530 alvinegros estiveram presentes no Décio Vitta.

Para a torcida atleticana, nenhum atrativo. O time estava longe de sua verdadeira casa e no estado de São Paulo não há muitos torcedores do Galo. Certamente, se este jogo acontecesse em território mineiro, a torcida do Atlético marcaria presença.

Resumindo: virou mando de ninguém e um jogo de interesse apenas histórico, porque era o encontro de dois clubes "quase irmãos".

Chuva adia o jogo
Inicialmente, a partida estava marcada para o dia 6 de julho, mas caiu um verdadeiro "toró" na região fazendo com que o gramado do estádio Antônio Guimarães virasse uma piscina. Dessa forma, o embate foi adiado para o dia 7.


Tigre desfalcado lança jogador e Galo com força máxima
Enfim, pré-jogo! Mas o técnico Afrânio Riul tinha dores de cabeça para escalar o seu time: Marquinhos Sartore, goleiro, pediu para ser poupado; Claudir, zagueiro, estava contundido; Miel, volante, estava fora por conta de dores na panturrilha; Silva, atacante, estava contundido no tornozelo; Henrique, atacante, foi poupado por grande desgaste físico; Waguinho (Dias, hoje técnico do União Barbarense), meia, foi poupado pois vinha de sessões de fisioterapia.

Com Henrique e Silva descartados, Riul precisou lançar um novo jogador: Claudinho, de apenas 16 anos. O atleta, revelado na base do Rio Branco, já treinava com o time profissional, ou seja, estava liberado para ser uma aposta no grande confronto. "O Claudinho é bastante jovem, mas já vem treinando há algum tempo com os profissionais e demonstrando competência. Por isso, são grandes as chances de ele ser lançado contra o Atlético", disse o treinador do Tigre ao O Liberal de 6 de julho de 1990.

Claudinho foi o principal jogador das bases do Rio Branco no fim da década de 80 e começo de 90. Tinha um faro de gol inigualável. Além de realmente saber fazer gol, o centroavante era rápido, ligeiro. Combinação perfeita para infernizar a vida do Atlético Mineiro.

Aliás, o Galo não poupou atletas e foi com força máxima para o confronto. Era o principal amistoso preparatório para o jogo contra o Rio Negro, pela Copa do Brasil. Veja o que conta o jornal O Liberal de 6 de julho de 1990: "A delegação do Atlético Mineiro deixou Belo Horizonte ontem às 16 horas e desembarcou no Aeroporto de Cumbica, em São Paulo, por volta das 17h45. No entanto, os mineiros só chegaram em Piracicaba, onde estão concentrados, às 22 horas. O supervisor Mussula (Luiz de Matos Luchesi), em contato telefônico com O Liberal, garantiu que o técnico Artur Bernardes poderá contar com todos os titulares, inclusive o ponta esquerda Eder. "A escalação é feita pelo treinador, mas posso assegurar que a equipe que está disputando a Copa do Brasil virá para o amistoso", disse Mussula."

Sem desfalques, o técnico Artur Bernardes não pensou duas vezes e escalou o time titular que tinha batido o Vila Nova pelas 16 avos da Copa do Brasil.

O jogo
O técnico Afrânio Riul fez uma mudança ousada e surpreendente: Bugre, originalmente atacante, foi para meio de campo, e Cido (e não mais Claudinho) foi colocado no ataque pela ponta-direita. Estava desfeito o tridente de ouro do primeiro Tigre do Brasil: Bugre, o craque Macedo e Adílson. Parecia maluquice - e realmente era -, mas diante dos desfalques e das dificuldades, o técnico riobranquense precisou fazer essa improvisação. Aliás, a mudança se tornava menos absurda quando Bugre tinha qualidade técnica de sobra para atuar no meio de campo.

No Atlético Mineiro, nenhuma surpresa. O time titular de Artur Bernardes estava escalado, inclusive com Eder Aleixo na ponta-esquerda. Gerson, eterno artilheiro atleticano - foram 92 gols em 148 jogos -, era o centravante.

O primeiro tempo foi bastante movimentado. Digno de um embate entre Rio Branco e Atlético Mineiro, ou seja, entre um grande interiorano e um grande/gigante do futebol brasileiro. As duas equipes ousaram e buscaram o gol a todo momento. Éder Aleixo era o trunfo do Galo, enquanto Macedo e Bugre eram peças chaves do esquema do Tigre.

Aos 40 segundos de partida, na primeira trama ofensiva de um dos times, Bugre chutou da entrada da área, Maurício falhou e a bola morreu no fundo das redes. 1 a 0 Rio Branco.

O Atlético Mineiro achou que o Rio Branco iria recuar, mas os comandados de Afrânio Riul seguiram no ataque e, surpreendentemente, o tridente ofensivo riobranquense dava muito trabalho a defesa do Galo. Deu certo a mudança de Riul, pois Bugre estava fazendo um grande papel no meio de campo ao lado de Pianelli.

Porém, aos 36 minutos, em um contra-ataque puxado por Aílton e tabela com Gerson, o centroavante do Atlético Mineiro empatou: 1 a 1.

O segundo tempo foi mais pegado no meio de campo, já que o Galo tinha dificuldades para frear o ímpeto dos atacantes do Rio Branco. As melhores jogadas do time mineiro partiam da individualidade de Eder Aleixo ou Marquinhos.

Sem mais tentos, a partida terminou no empate: 1 a 1. Segundo o jornal O Liberal de 8 de julho de 1990: "O placar final (1 a 1) refletiu o equilíbrio de forças entre as equipes, apesar de que o Rio Branco teve maior volume de jogo e chegou a criar mais chances para vencer."

Estava encerrada a batalha dos quase irmãos. E o Tigre da Paulista provou o seu valor, mesmo sendo teoricamente um time mais modesto que o Galão da Massa.


Ficha técnica: Rio Branco 1x1 Atlético Mineiro
Jogo: Rio Branco Esporte Clube 1x1 Clube Atlético Mineiro
Local: Estádio Antônio Lins Ribeiro Guimarães - 10h
Gols: Bugre - 1x0 Rio Branco; Gerson - 1x1
1º tempo: Rio Branco 1x1 Atlético Mineiro
Final de jogo: Rio Branco 1x1 Atlético Mineiro
Renda: Cr$60.600,00
Público: 369 pessoas (menor público do ano)
Árbitro: José Aparecido de Oliveira
Auxiliares: Manoel Gil Gomes e Thompson Mário Galvão
RIO BRANCO (4-3-3): Carlos; Jorge Luis (Bira), Aílton Luis, Edson Fumaça e Gilson; Pedro Paulo, Bugre e Pianelli; Cido, Macedo (Claudinho) e Adilson (Mirandinha). Técnico: Afrânio Riul.
ATLÉTICO MINEIRO (4-3-3): Maurício; Carlão (Riuler), Cléber, Toninho Carlos (Paulo Sérgio) e Paulo Roberto; Moacir, Aílton e Marquinhos (Wallace); Nilton (Tato), Gerson e Éder Aleixo (Mauricinho). Técnico: Artur Bernardes. 

DETALHES
- Perceba o quão ofensivo estava o Rio Branco: Bugre, Pianelli, Cido, Macedo e Adilson. Pianelli era o clássico camisa 10 do Tigre. Bugre era um atacante improvisado no meio de campo, ou seja, meia-ofensivo. E, por fim, três atacantes: Cido, Macedo e Adilson. 
- Time pequeno? Pianelli foi um dos melhores meias do futebol paulista na década de 80. Ex-XV de Piracicaba e São Paulo. Macedo foi revelado no Rio Branco, mas viria ser um craque do São Paulo e da Seleção Brasileira. Bugre era apontado como promessa da década de 80 no Morumbi.
- Para provar a titularidade do adversário pegamos uma escalação do Centro Atleticano de Memória entre Atlético Mineiro e Atlético de Madrid: Rômulo; Carlão, Cléber, Toninho Carlos (Tobias) e Paulo Roberto; Éder Lopes, Marquinhos e Tato (Mauricinho); Gilberto Costa, Gerson e Éder Aleixo.
- O público pífio do amistoso - e aí está a bola fora do Consórcio Piracicaba - acarretou em prejuízos à empresa organizadora. 

"Quase irmãos"
Mas afinal, por que quase irmãos? Obviamente não podemos dizer que são irmãos porque não foram fundados pela mesma pessoa. Mas o Rio Branco carrega várias características que são inspiradas do Atlético Mineiro, como um "irmão adotivo".

Vamos lá!

A primeira característica é tradicional camisa listrada. A camisa listrada do Rio Branco nasceu de inspiração do Atlético Mineiro. Aliás, em 2010, o hoje vice-prefeito de Americana, Roger Willians, e que antes possuía um site esportivo, fez uma matéria com título de "Ela vai voltar...", contando toda a história da camisa listrada. Nela, Totó Bressan, ex-dirigente do Tigre, declara que deveria ser proibido o Rio Branco não utilizar camisas listradas.

Mas como o Rio Branco se inspirou no Atlético Mineiro sendo que não estava no mesmo estado mineiro e se o Galo ainda não tinha tamanha relevância nacional? Aliás, até pela força do estado de São Paulo e a irrelevância do futebol mineiro na década de 20, o Tigre, com os vices-estaduais de 1922 e 1923 (Taça Competência), tinha mais relevância que o Atlético.

O Atlético Mineiro, apesar de quase não ter saído do estado nas primeiras décadas, disputou alguns amistosos e torneios amistosos no estado de São Paulo contra os times da capital na década de 10 e 20. Tudo isso era divulgado na Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, que apesar de ser uma época com comunicação remota, os jornais já chegavam no interior paulista, especialmente nos grandes centros (como Campinas, cidade a qual Americana pertencia). Os jornais possuíam poucos registros fotográficos - na verdade, eram mais fotos dos jogadores como "santinhos" -, mas era completamente possível identificar a camisa que os jogadores vestiam. Sem contar, claro, dos registros fotográficos da época, ainda em preto e branco e em pequena resolução.

Vale lembrar também que antes do Rio Branco utilizar as camisas listradas, o alvinegro usava camisa branca lisa e calção e meia pretas, isso de 1913-1917 e 1919-1920.

Perceba como as camisas se assemelham:

Foto: Manoel Higino
Atlético da década de 20. Foto: ADEMG
O trio maldito atleticano - Década de 20
Foto: Jairo Said
Rio Branco de 1932
Foto: Fernando Guerra
Rio Branco vice-estadual de 1922
Foto restaurada por Henrique Silveira
Equipe juvenil do Tigre de 1938
Foto: Fernando Guerra

Depois das camisas vem o escudo do Tigre no fim da década de 50 e começo de 60 - que, aliás, inspiraria o atual escudo. O Rio Branco fez um escudo igualzinho ao do Atlético Mineiro da década de 50 e começo de 60. 

CAM e RBFC da década de 50 e começo de 60
Almanaque da FPF de 2007
Alguns conhecem o escudo da década de 50/60 dessa forma.
São apenas variações gráficas, os dois modelos estão corretos,
apesar do mostrado anterior ser o mais aceitável.
Este escudo da década de 60, viria a inspirar o atual:


A terceira é o estádio da Rua Fernando de Camargo que segundo o colunista mais maluco da história de Americana, Honorato, foi inspirado no estádio de Lourdes, do Atlético Mineiro. Porém, é bom alertar aos riobranquenses: é mais fé do que verdade. Honorato costumava escrever algumas maluquices como o Rio Branco fundado em 1912, sendo que há atas comprovando que nasceu em 4 de agosto de 1913. Enfim, até onde essa informação é verdade ninguém sabe, mas uma rápida busca pela internet pode-se achar fotos dos dois estádios que possuem alguns poucos traços semelhantes.

Está aí alguns laços históricos entre Rio Branco e Atlético Mineiro. Vale ressaltar que vários jogadores do Tigre foram negociados com o Galo em toda a história e o time mineiro sempre teve privilégios nas negociações, o que caracteriza uma certa empatia entre a diretoria dos dois clubes. 

E esperamos que futuramente eles voltem a se enfrentar, mas dessa vez não por amistoso e sim por campeonatos importantes do nosso futebol, algo que já passou perto de acontecer. Aliás, depois de 1990, Tigre e Galo se encontraram pela última rodada da primeira fase da Copa São Paulo de Juniores de 2009, Na ocasião, os dois alvinegros brigaram pela liderança do grupo e a classificação à segunda fase. Deu Rio Branco, na época atual vice-campeão da competição, 3 a 0. 

Ah! E claro, além de agradecer pela honra de jogar com o nosso "quase irmão", nunca é tarde para fazer um pedido: Galo, nos empresta umas horinhas do seu milagre, faz favô! Nóis tamo acreditando na virada!